domingo, 14 de dezembro de 2014

Meritocracia, classe média, programas assistenciais

Marilena Chaui e Renato Santos de Souza: A classe Média
 
Tendo em vista que nosso primeiro contato com as idéias de Bourdieu não surtiram todo o esclarecimento necessário, sugiro uma reintrodução ao tema. O texto com que vamos trabalhar ((http://jornalggn.com.br/fora-pauta/desvendando-a-espuma-o-enigma-da-classe-media-brasileira)) possui como provocação inicial o discurso em que Marilena Chauí, professora da USP e renomada  filosofa brasileira, diz: "Eu odeio a classe Média".  O texto "Desvendando a espuma: o enigma da classe média brasileira" é de  .
Eu discordo parcialmente de dois pontos importantes do discurso de Marilena Chauí, a saber: a re-significação da ciência no Capital, e a de que não existe uma nova classe média. Deixo estas análises para a sala de aula. Vejam o vídeo e leiam o texto.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Vídeos para a Reflexão:

Alguns vídeos para se pensar a nossa concepção de Ser humano.




Diferenças étnicas e de gênero na ciência.


Crianças criadas por animais - Parte 1:


Crianças criadas por animais - Parte 2:


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A atriz, o Padre e a Psicanilista - Os amoladores de faca.

O texto propõem demonstrar a ideia de um genocídio social de forma que ocorre de forma indireta pelos chamados ‘‘amoladores de facas”. Tais "amoladores" influenciam a opniao social de forma indireta, e a disseminação de suas ideologias servem como justificativa para  decisões individuais de conseqüência coletiva.


Alguns sujeitos sociais criam uma opinião pública reconhecida no nível do senso comum, que de certa forma "amolam as facas", preparando o contexto para atos de violência discriminatória e crimes de ódio. Tais sujeitos se dizem incapazes  de cometer uma ação agressiva, mas são cúmplices dos sujeitos que cometem diretamente a violência. Os discursos moralistas são aqueles que especialmente alimentam a opinião autoritária e preconceituosa das massas, criando visões eugênicas de mundo, desqualificando a subjetividade e os direitos de grupos que se tornam cada vez mais excluídos socialmente, suprimindo o direito a diferença. A violência física, verbal e social contra negros, mulheres, homossexuais, nordestinos são exemplos desse fenômeno social, fruto das construções realizadas pelos amoladores de facas.

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DOWNLOAD do texto:
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domingo, 10 de agosto de 2014

Feuerbach - A essência do Cristianismo

Ludwig Feuerbach

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ludwig Andreas Feuerbach
Ludwig Feuerbach
Nascimento28 de Julho de 1804
LandshutAlemanha
Morte13 de Setembro de 1872
Rechenberg, perto deNuremberg, Alemanha
NacionalidadeAlemã Flag of Germany.svg
OcupaçãoFilósofo, antropólogo
Influências
Influenciados
Magnum opusA Essência do Cristianismo
Escola/tradiçãoJovens hegelianos
Principais interessesTeologiaAntropologia
Ideias notáveisDeus é a projeção exterior do desejo de perfeição do homem
Ludwig Andreas Feuerbach (Landshut28 de julho de 1804 — Rechenberg, Nuremberg13 de setembro de 1872) foi um filósofoalemão1 .
Feuerbach é reconhecido pela teologia humanista e pela influência que o seu pensamento exerce sobre Karl Marx. Abandona os estudos de Teologia para tornar-se aluno do filósofo Hegel, durante dois anos, em Berlim. Em 1828, passa a estudar ciências naturais em Erlangen e dois anos depois publica anonimamente o primeiro livro, “Pensamentos sobre Morte e Imortalidade”. Nesse trabalho ataca a ideia da imortalidade, sustentando que, após a morte, as qualidades humanas são absorvidas pela natureza. Escreve “Abelardo e Heloísa” (1834), “Piere Bayle” (1838) e “Sobre Filosofia e Cristianismo” (1839). Na primeira parte desta última obra, que influencia Marx, discute a "essência verdadeira ou antropológica da religião". Na segunda parte analisa a "essência falsa ou teológica". De acordo com esta filosofia, a religião é uma forma de alienação que projeta os conceitos do ideal humano em um ser supremo. Ao atacar religiosos ortodoxos entre 1848 e 1849, anos de turbulência política, é considerado um herói por muitos revolucionários. Morre em Rechenberg, na Alemanha. O seu posicionamento filosófico é uma transição entre o Idealismo Alemão, de uma parte e, de outra, o materialismo histórico de Marx e o materialismo cientificista da segunda metade do século XIX. Este posicionamento é caracterizado pela inflexão antropológica que Feuerbach imprime a algumas categorias herdadas de Hegel. Suas principais obras são: Da razão, una, universal, infinita (1828); Pensamentos sobre morte e imortalidade (1830); Sobre a crítica da filosofia positiva (1838); Crítica da filosofia hegeliana (1839); A essência do cristianismo (1841); Sobre a apreciação do escrito “A essência do cristianismo” (1842); Princípios da filosofia do futuro (1843); Teses provisórias para a reforma da filosofia (1843); Lutero como árbitro entre Strauss e Feuerbach (1843); A essência da religião (1846); Fragmentos para a caracterização de meu Curriculum vitae (1846); Preleções sobre a essência da religião (1851) e Teogonia (1857).
Para Feuerbach, a alienação religiosa segue-se dentro de uma teoria teológica buscando a razão e a essência do homem no mundo, mas o homem é essencialmente antropológico na característica humana, pois adquire sentimentos e sensibilidade. É desta forma que Feuerbach observa a alienação decorrente em cada indivíduo que busca uma relação substancial entre Homem e Deus.
O que proporcionou esse pensamento de Feuerbach foi a influência da teoria de Hegel e, mais tarde, a teoria de Marx. Posteriormente, nessas duas linhas de pensamento, uma teórica, a outra prática, Feuerbach busca a formula do Homem vs. Deus vs. Religião.
Portanto, intermediar essas teorias não foi fácil para Feuerbach, pois a Alemanha passava por uma forte mudança cultural; daí a forte crítica ao seu pensamento. Dentro desse contexto histórico, observa-se a teoria de Feuerbach voltada para a “teoria”, e a teoria de Marx, onde a lógica é a prática. Porém não é a teoria que busca a essência do homem, mas é na prática que os indivíduos se relacionam, afirma Marx mais tarde, com sua crítica a Feuerbach.
Faleceu em 13 de setembro de 1872
Encontra-se sepultado em JohannisfriedhofNurembergaBaviera na Alemanha.2

O homem é aquilo que come

A situação material em que o homem vive é que o cria. Feuerbach nega o conceito de que exista primeiro a ideia e depois a matéria. Para ele a maçã real precede a ideia da maçã. Afirma que deveríamos entender Hegel de cabeça para baixo. Para Feuerbach, Hegel descreve o homem de ponta-cabeça.

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quinta-feira, 24 de julho de 2014

A Sociedade do Espetáculo

A Sociedade do Espetáculo é o trabalho mais conhecido de Guy Debord. Em termos gerais, as teorias de Debord atribuem a debilidade espiritual, tanto das esferas públicas quanto da privada, a forças econômicas que dominaram a Europa após a modernização decorrente do final da segunda grande guerra.
Ele faz a crítica, como duas faces da mesma problemática, tanto ao espetáculo de mercado do ocidente capitalista (o espetacular difuso) quanto o espetáculo de estado do bloco socialista (o espetacular concentrado).
A pesquisa desenvolvida por ele está fundamentada nos trabalhos de Karl Marx. Para conceber o atual estado do desenvolvimento capitalista Debord se utiliza da noção de valor, conceituada por Marx no primeiro capítulo do livro O Capital. Neste sentido o valor (que é diferente do preço) surge no mercado como elemento de representação do trabalho socialmente necessário para a produção da mercadoria. Tal característica da mercadoria não se apresenta na forma material, mas no ato de equiparação entre duas mercadorias. Para que possamos entender como o valor irá resultar na reificação, ou seja, como a representação do trabalho que cada mercadoria contém irá resultar na redução dos Homens a simples coisas, simples mercadorias no mundo do trabalho, é fundamental a leitura do trabalho de Karl Marx. E mais, é fundamental a leitura do livro História e Consciência de Classe, de Georg Lukács.
No entanto, Guy Ernest Debord não é apenas um competente leitor de Marx. Em sua obra podemos encontrar também referências outras como Mikhail Bakunin ou Sigmund Freud. Sua obra A sociedade do Espetáculo é o resultado de uma série de debates e leituras acerca dos conceitos desenvolvidos por Marx. Debate este que tem recebido contribuições enriquecedoras de diversas pessoas e de diversas ações. Pessoas como Anselm Jappe e Robert Kurz.
O ponto central de sua teoria é que a alienação é mais do que uma descrição de emoções ou um aspecto psicológico individual. É a conseqüência do modo capitalista de organização social que assume novas formas e conteúdos em seu processo dialética de separação e reificação da vida humana. Como uma constituição moderna da luta de classes, o espetáculo é uma forma de dominação da burguesia sobre oproletariado e do espetáculo, sua lógica e sua história, sobre todos os membros da sociedade.
Debord mostra algumas estratégias que buscam resistir à alienação através da supressão ou derivação da realidade espetacular, destruindo os valores burgueses tal como a submissão ao mundo do trabalho.

Filme "A Sociedade do Espetáculo"



Baixar o livro  a Sociedade do Espetáculo: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/socespetaculo.pdf

terça-feira, 13 de maio de 2014

SOCIEDADE, CULTURA E EDUCAÇÃO: Marx e a Educação

Desenvolvimento do pensamento de Marx

Marx doutorou-se em Filosofia pela Universidade de Berlim em 1841. Aproveitou ideias no que chamou «socialismo utópico», de Saint-SimonFourier e Robert Owen. Dessas ideias sublinhou a imoralidade da má distribuição da riqueza, bem como o princípio de que a propriedade privada dos meios de produção é a responsável pelo estado de injustiça na sociedade humana. Dentro desta linha de pensamento, Proudhon proclama que «a propriedade é um roubo» (1). Marx não foi tão longe.
Estudioso, Karl Marx também se informou sobre as teorias económicas de Adam Smith (autor de importantes obras no campo da Economia, como Riqueza das Nações), e David Ricardo, também economista, que se interessou pela obra de Adam Smith, tendo ele próprio continuado o desenvolvimento da Economia, publicando entre outras a obra Princípios de Economia Política e de Tributação. Tendo sido aluno de Hegel, Marx reinterpreta a sua dialéctica que explicava o desenvolvimento universal por um movimento em três momentos, «tese - antítese - síntese». Mas, enquanto Hegel aponta Deus como o culminar desse movimento, Marx aplica a dialéctica ao desenvolvimento social: a tese é o estado actual da sociedade, a antítese é o proletariado, a síntese (superação) será uma nova sociedade, a sociedade socialista, a qual, em movimentos posteriores chegaria à fase comunista. Da obra do seu colega de Universidade, Ludwig Feuerbach, retirará a noção de alienação, patente no escrito Manuscritos económico-filosóficos de 1844. Mas, enquanto para Ludwig Feuerbach a alienação (estado de uma consciência distorcida da realidade) é proveniente da religião - «ópio do povo» - para Karl Marx, é a situação social do homem que determina a sua consciência. Note-se que já David Ricardo considerara que «Os grupos ou classes sociais têm solidariedade e costumes próprios» (2).
Karl Marx entende que os processos económicos determinam toda a evolução social humana. A organização económica de uma sociedade é a sua base, a sua «infraestrutura». A cultura em geral e o próprio sistema educativo, dependem desta e constituem a «superestrutura». É a propriedade privada dos meios de produção que gera desigualdade e alienação.

A educação sob o ponto de vista de Marx, Engels e Lenine

Marx considera a educação como parte do sistema económico incorrecto, estando ao seu serviço. O capitalismo produz a concentração de riqueza que reduz os que vendem o seu tempo de vida para sobreviverem - os proletários - a um estado de alienação. O trabalho alienado, para Marx, não realiza o trabalhador. «Um dos pontos essenciais dosManuscritos de 1844 é uma crítica radical à sociedade capitalista centrada na análise da alienação, cuja matriz explicativa será, na perspectiva de Marx, a alienação sócio-económica. A propriedade privada dos meios produtivos, indissociável do fenómeno da alienação, será ainda para Marx a raiz dos antagonismos sociais e políticos que caracterizam a sociedade burguesa.» (3)
De resto, para Marx, «[Com a divisão do trabalho] desde que o trabalho começa a ser repartido, cada indivíduo tem uma esfera de actividade exclusiva que lhe é imposta e da qual não pode sair; é caçadorpescador ou crítico e não pode deixar de o ser, se não quiser perder os seus meios de subsistência.» (4)
«O trabalhador torna-se tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e em extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoriatanto mais barata, quanto maior número de bens produz. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção directa a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz apenas mercadorias; produz-se também a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e justamente na mesma proporção com que produz bens. Semelhante facto implica apenas que o objecto produzido pelo trabalho, o seu produto, se lhe opõe como ser estranho, como um poder independente do produtor. O produto do trabalho é o trabalho que se fixou num objecto, que se transformou em coisa física, é a objectivação do trabalho. A realização do trabalho aparece na esfera da economia política como desrealização do trabalhador, a objectivação como perda e servidão ao objecto, a apropriação como alienação.» (5)
Antes de outras questões Marx e Engels colocam a própria divisão do trabalho na raiz das distinções sociais. Marx e Engels consideram também crucial o papel do Estado, no desenvolvimento de determinado tipo de sociedade.
«Como o Estado nasceu da necessidade de conter o antagonismo das classes, e como, ao mesmo tempo, nasceu no seio do conflito entre elas, é, por regra geral, o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante, classe que, por intermédio dele, se converte também em classe politicamente dominante e adquire novos meios para a repressão e exploração da classe oprimida. Assim, o Estado antigo foi, sobretudo, o Estado dos senhores de escravos para manter os escravos subjugados; o Estado feudal foi o órgão de que se valeu a nobreza para manter a sujeição dos servos e camponeses dependentes; e o moderno Estado representativo é o instrumento de que se serve o capital para explorar o trabalho assalariado.» (6)

Origem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Educa%C3%A7%C3%A3o_no_contexto_do_marxismo

Referências

(1) PROUDHON, Pierre-Joseph - A nova sociedade. Porto: Rés, [19??].
(2) RICARDO, David - Princípios de economia política e de tributação. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1978, p. 13.
(3) SOUSA, Maria Carmelita Homem de - Os manuscritos de 1844 de Karl Marx. Revista Portuguesa de Filosofia. Braga: Faculdade de Filosofia. ISSN 0870-5283. 36:2 (1980) 153-186.
(4) MARX, Karl; ENGELS, Friedrich - A ideologia alemã. Lisboa: Presença, 1975. vol. 1, p. 40.
(5) MARX, Karl - Escritos de juventude: manuscritos de 1844. Lisboa: Edições 70, 1975, p. 130.
(6) ENGELS, Friedrich - A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Lisboa: Presença, 1974, p. 227-228

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domingo, 11 de maio de 2014

ANTROPOLOGIA CULTURAL I: A noção de cultura nas ciências sociais

Atualmente, a palavra “cultura” faz referência a tudo relacionado ao mundo das artes (cinema, teatro, literatura, música, etc.) e a costumes passados de geração para geração em um grupo de pessoas. A sua primeira aparição na história aconteceu na França, no fim do século XIII, e posteriormente foi utilizada em outros países, mas com distorções de seu sentido original.

“Cultura” é derivada do latim “cultura” e foi criada para se referir ao cultivo do campo e gado. Assim como qualquer palavra, com o passar do tempo seu uso foi modificado, e o termo passou a ser utilizado em outros sentidos.
No século XVIII há o surgimento da palavra “civilização” que passará a ser frequentemente associada a cultura, porém, ambos possuem conceitos que se divergem; sendo cultura sinônimo de progressos individuais e civilização se atribui a progressos coletivos. Civilização será logo utilizada como o processo de educação de uma sociedade.
Na Alemanha, a palavra “Kultur” é mais utilizada em um sentido figurado, diferente do que acontece na França. Esta palavra sobressai à palavra “civilização”, por ser mais utilizada pela burguesia intelectual alemã e por ser usada como uma espécie de afronta as noções da aristocracia. Esta disputa entre aristocracia e burguesia acontece por diferenças de valores. A aristocracia preza as boas maneiras da corte, tentando imitar a França, que na época era tido como um estado extremamente evoluído; já a burguesia, normalmente era formada por intelectuais que prezavam o consumo da literatura, artes, etc. Desta disputa, surgiram conceitos opostos.

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quarta-feira, 23 de abril de 2014

ANTROPOLOGIA CULTURAL II: Identidade e cultura em Stuart Hall

Três concepções de identidade
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Para os propósitos desta exposição, distinguirei três concepções muito diferentes de identidade, a saber, as concepções de identidade do:

                    a) Sujeito do Iluminismo,
          b) Sujeito sociológico e
c) Sujeito pós-moderno.

O sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo "centro" consistia num núcleo interior, que pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo — continuo ou "idêntico" a ele — ao longo da existência do indivíduo. O centro essencial do eu era a identidade de urna pessoa. Direi mais sobre isto em seguida, mas pode-se ver que essa era uma concepção muito "individualista" do sujeito e de sua identidade (na verdade, a identidade dele: já que o sujeito do Iluminismo era usualmente descrito como masculino).
A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com "outras pessoas importantes para ele", que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos — a cultura — dos mundos que ele/ela habitava. G.H. Mead, C.H. Cooley e os interacionistas simbólicos são as figuras-chave na sociologia que elaboraram esta concepção "interativa" da identidade e do eu. De acordo com essa visão, que se tornou a concepção sociológica clássica da questão, a identidade é formada na "interação" entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o "eu real", mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais "exteriores" e as identidades que esses mundos oferecem.
A identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o "interior" e o "exterior"— entre o mundo pessoal e o mundo público. O fato de que projetamos a "nós próprios" nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando- os "parte de nós", contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade, então, costura (ou, para usar uma metáfora médica, "sutura") o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis.
Argumenta-se, entretanto, que são exatamente essas coisas que agora estão "mudando". O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não- resolvidas. Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens sociais "lá fora" e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as "necessidades" objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático.
Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma "celebração móvel": formada transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987). E definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um "eu" coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora "narrativa do eu" (veja Hall, 1990). A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada unia das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente.

Deve-se ter em mente que as três concepções de sujeito acima são, em alguma medida, simplificações. No desenvolvimento do argumento, elas se tornarão mais complexas e qualificadas. Não obstante, elas se prestam como pontos de apoio para desenvolver o argumento central do livro "A identidade cultural na pós-modernidade", de Stuart Hall.


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O Livro de Hall pode ser encontrado em:

domingo, 20 de abril de 2014

O QUE É CULTURA?

Três compreensões de Cultura - Félix Guattari   

O termo "cultura" é polissêmico, pois pode ser proferido com significados distintos. É comum, por exemplo, ouvirmos dizer que determinada pessoa tem [1] cultura porque fala vários idiomas ou porque conhece muitas obras de literatura. Saindo do plano individual, também é frequente lermos que certa civilização produziu uma [2] cultura muito complexa do ponto de vista religioso, como é o caso do Bramanismo. Além desses dois usos, eventualmente nos deparamos com pessoas que costumam comparar a época atual com a do passado, dizendo, por exemplo, que as pessoas da década de 1970 não apreciavam a [3] cultura pop internacional tanto quanto as de hoje o fazem. Em todos esses casos, estamos diante da mesma palavra, “cultura”. Mas os sentidos com que ela aparece em cada um dos contextos são bastante diferentes, conforme notou o pensador Félix Guattari.
     Filósofo, psicanalista e militante francês, Pierre-Félix Guattari nasceu em 1930 e faleceu há 20 anos, em 1992. Tendo se debruçado sobre diversos temas, uma das contribuições de Guattari é a distinção dos três sentidos usuais de “cultura”: cultura-valorcultura-alma coletiva e cultura-mercadoria.
     A noção de "cultura-valor" é a mais antiga das três. Ela expressa a ideia de que é possível ter ou não ter determinada cultura. É o caso, por exemplo, dos brasileiros que dominam a língua francesa, latina ou alemã, sendo, por isso, considerados cultos. O uso do termo “cultura” para denotar um valor permite, portanto, determinar a distinção entre quem tem e quem não tem uma suposta cultura (por exemplo, artística, musical, científica, filosófica e matemática, dentre outras). A noção de cultura como valor permite, ainda, classificar certo indivíduo como pertencente ao meio culto ou inculto, dentre muitos outros. Pessoas que não dominam as normas da língua culta para a escrita, por exemplo, tentem a ser classificadas como incultas.

Pessoas com repertórios culturais muito distintos e oriundas de culturas extremamente diversificadas podem muito bem partilhar a mesma cultura-mercadoria quando assistem ao Big Brother ou escutam Lady Gaga.

     O segundo significado do uso cotidiano da palavra “cultura”, o chamado “cultura-alma coletiva”, é sinônimo de “civilização”. Nesse caso, estamos diante da noção de que todas as pessoas, grupos e povos têm cultura e identidade cultural. A população do interior do estado de São Paulo, por exemplo, tem como parte integrante de sua identidade cultural um sotaque bastante peculiar na pronúncia do “r” em palavras como “porta”, “jantar” e “dormir”, dentre tantas outras. É nesse sentido, portanto, que falamos de cultura negra, chinesa ou ocidental, sempre fazendo referência aos traços culturais que possibilitam a identificação e a caracterização dos indivíduos que constituem esses povos.
     Finalmente, o uso do termo “cultura” como cultura-mercadoria corresponde, segundo Guattari, à chamada “cultura de massa”. Nesse caso, não se trata de avaliar a qualidade da cultura que determinada pessoa tem ou não, nem tampouco de delimitar os traços culturais de um povo (como os habitantes do interior de São Paulo). A noção de cultura-mercadoria está ligada a bens, equipamentos e conteúdos teóricos e ideológicos de produtos que estão à disposição das pessoas que querem e podem comprá-los. São os casos, por exemplo, de serviços, filmes, livros, músicas, novelas, séries e programas de reality shows consumidos por milhões de pessoas dentro e fora do Brasil. Ou seja, pessoas com repertórios culturais muito distintos (primeiro sentido de cultura) e oriunda de culturas extremamente diversificadas (no segundo sentido de cultura) podem muito bem estarem inseridas no âmbito de uma cultura-mercadoria no momento que assiste ao Big Brother ou escuta Lady Gaga. Este terceiro modo de cultura, a cultura-mercadoria, enquanto um modo de cultura de dominação das massas, é degradante e deve ser colocado em suspensão por todos aqueles que pensam a cultura e a educação, como por exemplo os professores e demais profissionais da cultura.
     Muitas vezes a cultura-mercadoria subtrai elementos da "cultura-valor" e da “cultura-alma coletiva”, diminuindo seus sentidos, despotencializando suas forças. Guattari dirá a este respeito que:
Essa cultura de massa produz, exatamente, indivíduos,  indivíduos normalizados, articulados uns aos outros segundo sistemas hierárquicos, sistemas de valores, sistemas de submissão - não  sistemas de submissão visíveis e explícitos, como na etologia animal, ou como nas sociedades arcaicas ou pré-capitalistas, mas sistemas de submissão muito mais dissimulados. E eu nem diria que esses sistemas são "interiorizados" ou "internalizados" de acordo com a expressão que esteve muito em voga numa certa época, e que implica uma ideia de subjetividade como algo a ser preenchido. Ao contrário, o que há é simplesmente uma produção de subjetividade. Não somente uma produção da subjetividade individuada - subjetividade dos indivíduos - mas uma produção de subjetividade social, uma produção da subjetividade que se pode encontrar em todos os níveis da produção e do consumo. E mais ainda: uma produção da subjetividade inconsciente. A meu ver, essa grande fábrica, essa grande máquina capitalística produz inclusive aquilo que acontece conosco quando sonhamos, quando devaneamos, quando fantasiamos, quando nos apaixonamos e assim por diante. Em todo caso, ela pretende garantir uma função hegemônica em todos esses campos (Guattari, F. & Rolnik, S.  Micropolítica: Cartografias do Desejo. Petrópolis: 1996, pp. 16).
     Neste sentido exposto por Guattari, a cultura se transforma em algo que suprime o pensamento, diminui as possibilidades de vida e de rompimento com um sistema que produz apenas "mesmidades", as quais interessam apenas ao próprio status quo. Tais mesmidades, em sua estrutura sutil, disfarçam-se de diferenças por meio do recurso das chamadas "identidades culturais". Mas o que é uma identidade cultural neste modelo da mercadoria? Este será o assunto de nossa próxima postagem/aula.

Texto adaptado de: http://clickeaprenda.uol.com.br/portal/mostrarConteudo.php?idPagina=30296.
Visitado em 20/04/2014
DOWNLOAD DE LIVRO:
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O Livro Micropolitica: Cartografias do desejo de F. Guattari e S.Rolnik pode ser baixado em:
https://onedrive.live.com/view.aspx?cid=04EDE51A3D5B3B69&resid=4EDE51A3D5B3B69%21119&app=WordPdf&authkey=%21ALyPyKsv_05yAMc&wdo=1