Três concepções de identidade
_________________________________________________________________________________
Para os propósitos desta exposição, distinguirei três concepções muito
diferentes de identidade, a saber, as concepções de identidade do:
a) Sujeito do Iluminismo,
b) Sujeito sociológico e
c) Sujeito pós-moderno.
O sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como
um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão,
de consciência e de ação, cujo "centro" consistia num núcleo
interior, que pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se
desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo — continuo ou
"idêntico" a ele — ao longo da existência do indivíduo. O centro
essencial do eu era a identidade de urna pessoa. Direi mais sobre isto em
seguida, mas pode-se ver que essa era uma concepção muito
"individualista" do sujeito e de sua identidade (na verdade, a
identidade dele: já que o sujeito do Iluminismo era usualmente descrito como
masculino).
A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do
mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era
autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com "outras pessoas
importantes para ele", que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e
símbolos — a cultura — dos mundos que ele/ela habitava. G.H. Mead, C.H. Cooley
e os interacionistas simbólicos são as figuras-chave na sociologia que
elaboraram esta concepção "interativa" da identidade e do eu. De
acordo com essa visão, que se tornou a concepção sociológica clássica da
questão, a identidade é formada na "interação" entre o eu e a
sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o "eu
real", mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos
culturais "exteriores" e as identidades que esses mundos oferecem.
A identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o
"interior" e o "exterior"— entre o mundo pessoal e o mundo
público. O fato de que projetamos a "nós próprios" nessas identidades
culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores,
tornando- os "parte de nós", contribui para alinhar nossos
sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e
cultural. A identidade, então, costura (ou, para usar uma metáfora médica,
"sutura") o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto
os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados
e predizíveis.
Argumenta-se, entretanto, que são exatamente essas coisas que agora
estão "mudando". O sujeito, previamente vivido como tendo uma
identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de
uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-
resolvidas. Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens
sociais "lá fora" e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com
as "necessidades" objetivas da cultura, estão entrando em colapso,
como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de
identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais,
tornou-se mais provisório, variável e problemático.
Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceptualizado como não
tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma
"celebração móvel": formada transformada continuamente em relação às
formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que
nos rodeiam (Hall, 1987). E definida historicamente, e não biologicamente. O
sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que
não são unificadas ao redor de um "eu" coerente. Dentro de nós há
identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que
nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que
temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos
uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora "narrativa do
eu" (veja Hall, 1990). A identidade plenamente unificada, completa, segura
e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de
significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma
multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada
unia das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente.
Deve-se ter em mente que as três concepções de sujeito acima são, em
alguma medida, simplificações. No desenvolvimento do argumento, elas se
tornarão mais complexas e qualificadas. Não obstante, elas se prestam como
pontos de apoio para desenvolver o argumento central do livro "A identidade cultural na pós-modernidade", de Stuart Hall.
DOWNLOAD DE LIVRO
_________________________________________________________________________________
O Livro de Hall pode ser encontrado em:
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.